
pôs o dedo na goela. afinal, deus estava no armário.
uma metáfora desfeita despencou do quinto andar.
todos já dormiam quando.
quis vomitar no azulejo.
e o dedo na metáfora.
tremia muito.
agora é hora do mergulho.
e ironicamente(?) o fim(por enquanto) da apnéia.
mas descobri um canal interessante. e a interrupção da respiração continuará aqui:
fé cega & pé atrás.
Por volta das onze da noite, os indigentes que se amontoam sob a marquise da loja de automóveis saltaram do intermitente sono.
A razão do salto foi uma Kombi branca, que subiu a calçada e estacionou à frente do grupo. Do veículo em questão desceram duas mulheres e três homens que, ao serem vistos pelos mendigos, foram de imediato identificados como evangélicos.
Uma das mulheres trazia consigo uma generosa travessa em que estavam dispostas, como bem deduzido pelos famintos, refeições.
A partir daqui tudo é previsível, ou parece.
Oração. Dormência de bocas e estômagos surpreendidos. E eu já estava a ponto de perder a cena de vista – acresce que eu caminhava pela calçada oposta – quando se deu o incrível.
Primeiro, uma luz incomum se acendeu no fundo da loja de automóveis. A devida ênfase, amigo leitor, ao fato de ser alta noite e estar o estabelecimento fechado.
Depois, um estridente som de trombetas acionou o motor dos carros no interior da loja. Os sons tétricos logo cessaram e a luz diminuía, diminuía – até que assumiu a forma de um homem.
Convicto da presença do demônio, um dos religiosos saiu em disparada. Os outros e mais os mendigos permaneceram letárgicos; aqueles talvez devido ao embate psico-espiritual, estes seguramente pela inoportuna hora da visita.
-- Quem és? – berrou uma das mulheres.
-- Aquele que vem da luz.
Com a voz embargada, um dos mendigos não se conteve e disparou:
-- Está nas escrituras: o próprio satanás insiste em disfarçar-se de anjo de luz.
O homem voltou-se para o intrépido indigente.
-- Cala e come.
-- Se és mesmo $@&*#, transforma estes farrapos em cama!
Com um sorriso no canto da boca, o homem disse que dia virá em... E, ao som das mesmas trombetas, caminhou para a luz que o esperava no fundo da loja de automóveis.
dá-lhe paulinho da viola: as coisas estão no mundo,
eu é que preciso aprender.
Anedota de apartamento
Havia um sujeito de pé, ao lado da porta, e naquele dia eu não saí de casa. Pelo olho mágico, vi sua sombra despejada sobre o corredor, envolvendo o tapete e o extintor de incêndio. Quem quereria matar-me?
Era o assassino. Só poderia ser um assassino à minha espreita naquela manhã – manhã que haviam escolhido para o meu extermínio.
Um vendedor já teria tocado a campainha. E eu não pedi que me entregassem pizza. Na certa traz consigo um revólver, o homem à porta, e a essa altura ajusta o cano silenciador. Porque seja lá quem queira acabar comigo, o quer em silêncio. É um profissional, não faz barulho e é paciente. Só não imaginou que tenho o costume de checar o olho mágico antes de pensar em abrir a porta. Mas não julguem que sempre fui caçado; é esta a primeira vez, e nem me vem à mente o possível algoz.
A sombra imóvel começa a desesperar-me. É frio este assassino, terá matado dezenas, talvez centenas, antes de mim. Fará isso por dinheiro, sim, mas é bem possível que seja também um prazer. O prazer de labutar na coisa e vê-la pronta. Um marceneiro faz mesas e cadeiras, ele faz cadáveres. Como se os esculpisse à bala – um tiro em determinada região do corpo produziria tal expressão cadavérica. É um artista, esta é sua arte e eu a matéria bruta.
Obviamente não vou me entregar tão fácil. Quero vê-lo frontalmente, olhar seu rosto. Se eu forçar a porta, e produzir algum barulho como se a fosse abrir, ele assumirá outra posição, a de tiro, talvez, e irá mover-se de maneira a ficar cara a cara comigo no olho mágico.
a desliteraturização do poema
soa mal aos ouvidos.
agora. agora. agora.
agora. agora. agora.
eu
gostaria de ver um pássaro.
como te sangro
inquieto e à margem
na lua nossa
fina camada branca
sobre a noite.
como me invades
tranqüila e morna
na fome nossa
funda mordida roxa
sobre a carne.
agora eu vi a neblina. poesia só se tiver calda de rima. grudando no prato. sangue de groselha. amanhã eu fui eu mesmo. quando eu tiver sede, chame a enfermeira. hoje eu quis abrir o jornal e ler a palavra “penhasco”. um em cada dez brasileiros. um em cada dez. um em cada.
prometa não rir de mim. ria de mim. rio do raio que cai sobre a árvore. partida no meio. fica engraçada. juro. às vezes fico com fome. e dano a rir de mim mesmo. rir do raio. partir. sentir fome.
esqueci o gosto. agora que não cavo, chove. em mim, chove. não sei bem a porta, mas eu tenho a chave.
uma vez vi alguém vomitar na montanha-russa. aquilo verde no ar. devia ser sopa de ervilha.
quem fala quando escrevo? estou calado. estou mudo.
estou aqui em silêncio.
não pense nisso.
aqui é o vão.
ouviu?
as próximas horas serão muito boas.
E posso dizer quando você não estava aqui eu era assim, e mostrar no dicionário palavras tais. Quando você não existia, o mundo era pálido. Antes de você, enquanto você não havia, existia um tempo-intervalo, como um ensaio das coisas à tua espera.
expresso 2222
ou
derretendo satélites.
Sardas no rosto – que veio do interior de Minas com um sonho doido. A cara do cara cubano gravada na batata da perna, e quem sabe acredite mesmo em revolução, pensei. Que no fundo é tão bonito. Isso de vir de longe e crer no mundo. Isso de vender uns móveis e entrar num ônibus.
Pois eu vi na íris. Aqueles olhos de escalar montanhas. Entre os cabelos, fitava-me ao lado, soslaio indecente. Que a minha carne-sem-tatuagem gemeu, teu corpo branco em ralos pêlos. Teus seios são.
*[o não-sentir fotografado]
Fustigadas pelo vento, as árvores salpicavam o chão com folhas mortas. A manhã tímida lançava luz doente sobre os sacos de lixo na calçada. E muros, carcomidos pelo tempo, exibiam inscritos indecifráveis. Mas talvez fossem versos frágeis, talvez fossem versos, e talvez fossem.
Nem o som das palavras ou o barulho dos carros, somente o asfalto nú. E na verdade todos estavam mesmo nus.
A calçada – e era engraçado isso de haver calçada – era entupida pelos sacos de lixo. Os sacos eram de plástico e sangravam latas de alumínio, umas de cerveja, outras de refrigerante, mas todas iguais, bem no fundo todas eram iguais.
Nascer o sol entre as árvores fustigadas era todo o mistério. Também eram estilhaços os raios de sol. Os raios de sol, as palavras sem som – manhã intocada. Asas dum pássaro mudo.
----------na curvatura do pescoço, a fonte turva, outra beleza. Que não se bebe em turva fonte, nem se aceita tanta sede, o lábio, a fuga. Saudade que já não é, de um tempo que nunca foi, o delírio impresso em cor, e o grito que da noite emerge, a sanha de repente surge. Entre a gente, a lente doida mente coisas, doidamente lindas, de lente suja, mente parca. A moça inquieta, a porta aberta e os versos vãos, sobre a mesa, sobre vida e sobre dor, sobretudo. Uns versos brancos na penumbra da prosa, negra rosa vã. O que resta é visgo, transe, luz e o mesmo tonto-coração.
...e então tens medo do mergulho insólito que é ser levada por tuas próprias pernas ao que desconheces por isso tu sentas à beira de uma praia qualquer e fumas outro cigarro numa espécie de aborto ou interrupção do que há pouco descobrias perdida na sucessão de pegadas voláteis que é a vida fadada ao acaso de encontrares alguém disposto a ouvir tuas bobagens cruéis que dizes entre um bar e outro com a pretensão de que a noite transforme tudo em poesia porque tens febre e borbulha dentro de ti uma massa disforme e inquieta que é a palavra e se não vomitares a gosma verbal que carregas serás decepada pela guilhotina do silêncio e andarás amputada como se faltasse um membro a teu corpo.
Aquilo
Dois mugidos eletrônicos. Alô.
-- E aquilo?
-- Na mesma.
-- Ah, é que surgiu um papo de que a coisa mudaria de rumo.
-- Falácias; aquilo não vai mudar.
-- Nunca?
-- Tão cedo, pelo menos.
A voz some. Ruído ao longe, lento que se arrasta no ar. E a voz ressurge.
-- Sabe, ainda tenho esperança.
-- É bom.
-- O quê?
-- Ter esperança depois de tudo.
-- Sei não, viu. Penso em ir, às vezes.
-- Pra onde?
-- Pra lá.
-- Mas não vale a pena, você sabe.
-- Ficar esperando aquilo é que não agüento mais.
Silêncio. Grilos na noite. A ligação picota, chia fino.
-- Afinal, de onde é que você está falando?
-- Daqui.
-- Ah... E há mais alguém aí?
-- Não, estou só.
Uma baforada no fone, acendeu o cigarro. A voz se extingue na fumaça, sopra sem jeito, quase entope.
-- Escute, desde quando você fuma?
-- Desde hoje. Ainda me atrapalho com o trago, logo acostumo.
-- Ei, não faça literatura de si.
-- Inevitável, sofro menos.
Desvia a boca, tosse, engole o muco imaginário.
-- Preciso desligar.
O riso irônico espeta o ouvido.